Paranatinga, 18 de Maio de 2021

Variedades

"Nunca tive necessidade de ser mãe", conta Maju Coutinho

Publicado 11/04/2021 19:58:16


Filha de professores, Maju Coutinho cresceu na Vila Matilde, Zona Leste de São Paulo, em uma família de classe média baixa. “Tive uma infância normal, boa, com comida em casa, estudei em escola particular, viajei”, conta a apresentadora do "Jornal Hoje", que neste mês completa 50 anos.

 

Para ela, é preciso tomar cuidado com os rótulos de sofredora, batalhadora e vencedora.

 

“É uma armadilha, em dois sentidos. Primeiro porque você vende que só podemos sair de uma condição, e não é verdade, apesar de ainda sermos maioria nas classes pobres. Depois, porque vende a questão da meritocracia: se a Maju conseguiu todas conseguem. Mas eu já saí de um patamar distante de outras meninas negras. O que não significa que elas não possam chegar, mas talvez tenham um caminho mais duro.”

 

Na entrevista, Maju Coutinho fala sobre ataques racistas e sua relação com os cachos: "Cresci vendo uma enxurrada de cabelos lisos e loiros. Não tinha consciência de que meu cabelo era assim. Tive que colocar um aplique para eles crescerem. Agora que tirei e o cabelo está natural, estou numa relação de amor profundo".

 

Elas têm, pelo menos, um exemplo diário na TV. E mandam fotos para a apresentadora, mostrando seus cabelos parecidos com os dela. “É um impacto muito bacana. Já valeu a vinda.”Em um post no Instagram, escreveu “Meus cachos, minha vida”.

 

O GLOBO: Sua relação com o seu cabelo sempre foi boa?

 

MAJU COUTINHO: Não. Apesar de meus pais serem do movimento negro, minha mãe era uma mulher que alisava o cabelo. Olha, a Glória Maria foi mesmo corajosa, bato palmas, porque usou o blackzinho dela por muito tempo como repórter. Cresci vendo uma enxurrada de cabelos lisos e loiros. Não tinha consciência de que meu cabelo era assim. Minha mãe fazia trancinhas nele quando eu era pequena, depois alisei.

 

Quando saiu a revista Raça, vi um cabelo todo trançado e pus trança. Aí tirei a trança e vi meu cabelo mais ou menos assim, mas ainda passava babyliss, que estragou os fios. Tive que colocar um aplique para eles crescerem. Agora que tirei e o cabelo está natural, estou numa relação de amor profundo. De entender quem ele é, como eu trato. Nunca tive isso antes.

 

Quando foi alvo de ataques racistas (em 2015), você disse que já tinha criado uma casca dura. tinha sofrido isso em outros momentos da vida?

 

Desde pequena. Espero que as crianças que estão chegando agora encontrem um caminho diferente. Pequenininha, estudava em pré-escola particular e era a única negra, então a coleguinha achava que a minha casa, a minha comida, o meu xixi, tudo era preto. Hoje dou risada, mas para uma criança é dolorido.

 

Tem também a questão de, quando se é negra como eu, com a pele mais escura, se é mais animalizada: macaco, essas coisas, é muito comum ouvir. Teve uma marcante, de um amigo-secreto, que hoje acho inimigo-secreto, mandar um bilhetinho: “Por que você não passa um condicionador nesse cabelo?”. Nesse nível. São essas coisas que fazem parte do racismo estrutural e que podem minar a confiança, a autoestima.

 

Tem vontade de ter filhos?

 

Nunca tive aquela vocação, aquele sentimento de ser mãe. Adoro crianças, as crianças gostam de mim. Meu marido tem dois filhos, né? Já é avô, inclusive, tem dois netinhos. Ele já tinha filhos adolescentes quando a gente se conheceu.

 

E a gente se dá muito bem do jeito que a gente tá, então eu nunca tive essa supernecessidade de ser mãe. De repente, mude de ideia, adote ou engravide. Não estou falando que é um jogo fechado, mas no momento é isso.

 

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